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Sabe quem foi Mandíbula? Conheça a historia de vida desse saudoso mito muito querido por todos os bertioguenses

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No velório de Mandíbula, que estava lotado de gente de todas as classes sociais e de diferentes idades, o prefeito à época, Mauro Orlandini colocou um emblema da prefeitura no peito dele, o qual foi enterrado junto com o saudoso

Por Willian Santos

Quem não conheceu o Mandíbula não conhece nada de Bertioga. Essa é uma frase que se pode dizer de boca cheia e batendo com a mão no peito, no momento de estufá-lo, impondo a certeza de que sabe das coisas. Nessa matéria, vão mais detalhes sobre a passagem dele pela cidade. Inclusive, ele se chamava, ‘Edson Augusto Parceiro’, um homem que atravessou algumas gerações no município, conquistando o coração de todos, inclusive, da galera mais jovem.

O folha News entrevistou o casal de emancipadores, Jerônimo Lobato e Eunice Lobato, que afirmou que Mandíbula era um excelente serralheiro de ferro, que veio fazer um portão para o ex-vereador Sérgio Pastori, na casa dele, em Bertioga. Este referido casal foi grande conhecedor e amigo da ilustre figura que era respeitavelmente conhecido por senhor Edson, no início dos anos 90.

Seo Jerônimo Lobato e dona Eunice Lobato relataram a história de Mandíbula, pois foram os melhores amigos dele em Bertioga

Eles contaram inclusive, como o senhor Edson veio parar em Bertioga. Ele residia no bairro do Tatuapé, na Capital Paulista. “Ele veio para cá fazer o serviço e ficou hospedado na casa de veraneio da irmã, que fica no bairro Vista Linda enquanto fazia o serviço para o Sérgio Pastori. Acabou que apareceram mais serviços para ele fazer e ele foi ficando na cidade”, conta Jerônimo, popularmente mais conhecido por Santista. Dona Eunice afirma que Mandíbula era empresário, havia sido casado, tinha até uma filha, e diz ainda mais. “Ele era estudado, tinha um jeito sátiro de ser”, ressalta.

Seo Santista fala do senhor Edson como um dono de uma inteligência rara, que tinha uma sacada muito rápida sobre tudo. “Ele falava muito bem, tinha um vocabulário rico. Um dia ele brincou assim: por que ‘tudo junto se escreve separado e separado se escreve tudo junto’? Ele fazia brincadeiras com as palavras, era impressionante”, explica.

O casal continua contando sobre a vida de Edson, afirmando que ele, apesar de tirar sarro das pessoas, quando elas apresentavam falta de raciocínio, sempre foi muito educado, a ponto de nunca ter falado sequer, um palavrão. Contudo, o lado satírico dele falava mais alto quando ele raciocinava uma sacada. Dona Eunice conta sobre uma situação hilária, à época das eleições que elegeram o ex-prefeito Rachid. “O Mandíbula gritava bem alto, em tom de sarcasmo para o candidato ouvir mesmo. ‘Viva o haxixe’! A turma dava risada. O Mandíbula enchia o saco do Rachid”, enfatiza.

Os relatos sobre o senhor Edson estavam ocorrendo de “vento em popa”, conforme o simpático casal de emancipadores, sempre risonho, ia contando. Dessa forma, chegou o momento de menção sobre Edson ter saído da casa da irmã e ter ganhado as ruas para chamar de lar. “Ele estava exagerando na bebida já fazia tempo e pouco trabalhava. A gente sempre oferecia um canto para ele ficar aqui em casa. Às vezes ele ficava aqui, mas logo voltava para as ruas. E sempre que ele queria, ele aparecia e ficava com a gente um tempo, porque ele sabia que tinha com quem contar. Ele já foi gerente de empresas, foi empresário, a família sempre teve recursos, sempre quis ajudá-lo, mas ele queria essa vida nas ruas, por opção dele mesmo”, comenta Santista.

Edson virou Mandíbula

Lucas Lobato, filho do casal, destaca que a alcunha “Mandíbula” aconteceu porque ele tinha um queixo protuberante, e foi comparado fisicamente com a personagem do desenho animado He-Man, que se chama Mandíbula e, assim, Edson ganhou esse apelido. Já sobre o trabalho que ele exercia na cidade, como serralheiro, Santista conta que ele era excelente nas tarefas, sendo que trabalharam juntos por muitas vezes. “Quando aparecia serviço pequeno, daqueles que a gente que é serralheiro termina rápido, o Mandíbula gostava, porque logo ele teria dinheiro na mão para gastar. E depois que ele pegava a grana, ele gastava tudo com bebida. Quando tinha serviço grande, ele nem aparecia para trabalhar”, relata Santista aos risos.

O álcool, as drogas e internações

Dona Eunice falou sobre o vício que Mandíbula tinha relacionado ao álcool e às drogas ilícitas, como, maconha e cocaína. Afirma-se que quando ele estava sob o efeito da combinação de bebida com estes referidos entorpecentes, ficava insuportável, a ponto de inclusive ter apanhado das pessoas pelas ruas da cidade. Dona Eunice conta que quando ele aparecia na casa dela, ele dizia. “Dona Eunice, pode bater em mim, eu vivo aprontando das minhas por aí. Eu estou precisando de um ‘toinhoinhoin’ para tomar jeito”. A reportagem perguntou: e a senhora dava uma surras nele de vez em quando? Ela aos risos diz. “Ah, às vezes ele merecia”. Seguidamente, seo Santista contou a história da laranjada. “Uma vez o Mandíbula estava aqui em casa e a Eunice estava fazendo laranjada. Ele já havia a perturbado no dia e ela perguntou se ele queria uma laranja ou queria a laranjada. Então ele disse que queria laranjada. Ela tacou uma laranja, que acertou no olho dele! Eu ri muito nesse dia”, enfatiza. Dona Eunice ressalta que Mandíbula chegou a ser internado pela família e por conta dela mesma, em clínicas para recuperação de dependentes químicos. Numa das vezes, ele recebeu alta quando estava internado na cidade de Campinas, no Interior Paulista e veio à pé para Bertioga. “Demorou quase um mês para ele chegar aqui. A avó dele ligou para a gente várias vezes, perguntando se ele havia chegado. Então teve um dia em que a gente avisou que ele estava por aqui. O Mandíbula era esperto, ele vinha pelo caminho, parava em alguma cidade, fazia algum tipo de serviço para conseguir dinheiro para beber, e assim ele foi vindo e chegou em Bertioga”, realça.

Caiu na graça da juventude

Sempre foi muito fácil ver o mandíbula batendo papo com o público jovem. Ele sempre estava junto com a galera nos luaus na praia, nas festas que eram organizadas em casas alugadas e nos bares, quando pagavam bebidas para ele. Ele era considerado pela juventude como uma espécie de conselheiro, um guru. E o Mandíbula era visto por aí aprontando das suas: entrando em templos religiosos e permanecendo no local, muitas vezes sem camisa. Na igreja católica, afirma-se que era comum encontrá-lo na fila da hóstia. Havia quem reclamasse, mas o padre sempre dizia: “Deixe ele aí”. Na festa Nacional do Índio, que era realizada no município, quando tribos do país inteiro participavam, o Mandíbula estava lá, querendo dançar no ritual indígena. A guarda municipal sempre dava um jeitinho de tirá-lo, todavia, se vacilassem, lá estava ele de novo na tentativa de se divertir com a dança dos índios.

Por conta de desobedecer ordens de autoridades, em alguns casos ele já apanhou da polícia. Numa dessas situações, o povo em peso rodeou o policial, o avisando que ele não deveria agredir o Mandíbula, pois, mexeu com ele, mexeu com Bertioga. Seo Santista contou que apesar de Mandíbula ter sido adepto do álcool e das drogas, ele nunca roubou ninguém para conseguir dinheiro para manter o vício. “Muito pelo contrário, ele era muito correto nessa parte. Inclusive não se misturava com quem fazia essas coisas que ele sempre foi contra. Sempre pudemos confiar nele plenamente. Inclusive se ele visse alguém conhecido fazendo coisas erradas, ele vinha nos contar para nos alertar”, diz.

Filhote de papagaio

Santista se lembrou de uma história inusitada e a contou para a reportagem. “Teve uma vez que o Mandíbula pegou todo mundo numa brincadeira. Ele pegou uma caixa de papelão e escreveu nela, ‘cuidado, filhote de papagaio’. No caso, era uma engenhoca que tinha uma linha que quando puxada, saia para fora da caixa, uma miniatura de pipa, destas que a criançada gosta de empinar, que também é conhecida por papagaio. Ele pegou uma mulher na rua mostrando que na caixa tinha um filhote de papagaio. Na hora ele puxou a cordinha e a mulher se assustou quando a pipa apareceu rapidamente. Ela deu dois pulos para trás, bateu com as costas no muro e começou a xingá-lo. Ele levou a caixa para a padaria e lá ele pegou todo mundo nessa brincadeira”, destaca Santista, com o sorriso estampado no rosto.

O fim da vida

Nas afirmações da família Lobato, a reportagem foi informada de que Mandíbula era traumatizado, pois o pai dele teria matado a mãe na sua frente, sendo esta situação, uma das hipóteses de ele ter optado por viver nas ruas, quando seu lado psicológico estaria abalado a ponto de não ter vontade de viver, da forma tradicional, imposta pela sociedade.

Santista conta que poucos anos antes de Mandíbula vir a falecer, ele andava meio sumido. Afirma-se que um amigo dele morreu e assim, nunca mais ele foi o mesmo desde então. A irmã dele trouxe a avó para visitá-lo em Bertioga, pois ela estaria doente e queria vê-lo pela última vez. “Ele adorava aquela avozinha. E ela o amava também. Precisava você ver como eles se tratavam com tanto carinho. Pior foi quando pouco tempo depois, demos a notícia a ele, de que ela havia falecido. Até nos arrependemos disso”, diz Santista.

No fim da vida, Mandíbula havia se distanciado de todos, vivendo mais isolado com ele mesmo, sendo que um dia foi encontrado por um amigo dele, já num estado moribundo, nas proximidades do campo do Bertioga Futebol Clube, no Centro da cidade. A Ambulância foi chamada e ele foi levado ao hospital. Entretanto, e ele veio a falecer quando tinha cerca de 56 anos, no ano de 2013, segundo afirma o casal de emancipadores. A causa mais provável da morte de Mandíbula, foi hipotermia, pois ele estava jogado ao relento nas noites frias de inverno. Santista conta que o velório e enterro dele lotou de gente.

“Eu nunca tinha visto isso na minha vida. No velório foi todo o tipo de gente: jovens, idosos, pessoas humildes, gente da alta sociedade da cidade. Tinha desde pé de chinelo até sapato de cromo nesse enterro. Isso nunca havia acontecido nem com gente considerada importante. Até o prefeito da época, o Orlandini esteve presente, trouxe um emblema da prefeitura de Bertioga e colocou no peito do Mandíbula. Ele foi um patrimônio da cidade. A história deste município fez questão de absorvê-lo. Não foi ele que quis, ele foi convidado”, encerra Santista.

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