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Jovem cria sex shop após demissão na pandemia e quebra tabus na web

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Beatriz Esmanhoto passou a se dedicar à loja quando ficou desempregada. Segundo ela, investimento aconteceu no momento certo.

Se dedicar a uma sex shop e falar abertamente sobre sexo nas redes sociais. Essas foram iniciativas que mudaram o ano de pandemia da estudante Beatriz Esmanhoto, de 19 anos. Moradora de Santos, no litoral paulista, a jovem se deparou com a necessidade de ganhar dinheiro, e decidiu apostar em um negócio que, anos antes, havia sido começado pela mãe. Durante o isolamento social, a empreendedora viu a venda de produtos eróticos saltar, e se empolgou com o crescimento.

A familiaridade de Beatriz com o ramo começou muito antes de a jovem decidir empreender. Em entrevista ao G1, a estudante contou que a ideia de abrir uma sex shop foi da mãe dela, por influência do filme ‘De Pernas pro Ar’, protagonizado pela atriz Ingrid Guimarães.

No entanto, a mãe acabou desistindo, e propôs que filha vendesse os produtos que restavam para não deixar a mercadoria parada. Foi nesse momento que a estudante de publicidade e propaganda assumiu o negócio.

“Ela me propôs vender os produtos como se eu fosse uma vendedora da loja, mas acabei pegando todas as funções para mim, e a loja também. No começo, via esse trabalho como uma forma de parar de pedir dinheiro aos meus pais, mas quando começou a pandemia, perdi o estágio que fazia, e já não sabia mais viver sem salário”, explica Beatriz.

Após ficar desempregada, a jovem resolveu dar mais atenção à sex shop, transformando a loja em sua principal fonte de renda. Por conta do isolamento social, Beatriz relata que dedicou seu tempo à construção da imagem da marca, um dos fatores que fez as vendas crescerem significativamente. “O Dia dos Namorados do ano passado foi ótimo. Eu peguei gosto, já tinha a loja antes, mas era só ‘um a mais’”, comenta.

Segundo a empreendedora, em três meses os lucros da loja triplicaram. Em junho do ano passado, mês do Dia dos Namorados, o faturamento que havia triplicado dobrou. De acordo com ela, o investimento aconteceu no momento certo.

“Se eu não estivesse bem estruturada, não teria ‘bombado’ tanto. Naquela época, investi na minha logo profissional, na identidade visual, comecei a divulgar muito forte no Facebook, Instagram, e comecei a aparecer bastante nos stories. Acho que foi o que fez a maior diferença”, destaca.

Para a cliente Bruna Gabriela Sevilha, de 20 anos, o trabalho de Beatriz foi responsável por quebrar tabus que ela carregava em relação à sexualidade.

“Eu tinha muita vergonha. Inclusive, quando comprei, fiquei pensando se realmente iria usar [os produtos], porque estava com muita vergonha. Só comprei por conta do Instagram da loja, ela desconstruía muito o assunto, e naturalizava. Aí, fui criando coragem para comprar. Hoje em dia, ela me transformou nesse quesito, sou super aberta para falar de sexo, produtos eróticos e afins”, diz.

Bruna já era cliente da loja antes da pandemia, no entanto, com o início do isolamento social, a autônoma conta que passou a investir em outros produtos. “Além de vibrador, comprei muitas outras coisas para usar a dois. É aquela coisa, trancada em casa, sem fazer nada, por que não fazer algo diferente, já que tem tempo e energia de sobra?”, argumenta. Segundo a jovem, assuntos com sexo e autoconhecimento precisam ser naturalizados o quanto antes.

“As mulheres sempre foram ensinadas a não explicitar isso. É só você ver o peso quando as pessoas sabem que um homem ‘se alivia sozinho’ e uma mulher ‘se alivia sozinha’. Já ouvi de ex-amigos que era ‘coisa de piranha’. Falta muita informação sobre o assunto, abordagem do tema, naturalização, fluidez, debate e divulgação. Se toda mulher se permitisse ter esse autoconhecimento, veria como as experiências sexuais e de autoestima podem mudar para melhor”, afirma Bruna.

Outra cliente, que preferiu não se identificar, conta que aproveitou o período de isolamento social para comprar coisas diferentes. “Por conta do isolamento, foi criada uma necessidade maior de comprar coisas que focavam somente em mim, e não no casal ou parceiro”, explica. Segundo ela, começar a adquirir produtos eróticos não foi algo fácil, no entanto, se libertar do sentimento de vergonha é necessário para se conhecer melhor e deixar os tabus de lado.

Venda de produtos eróticos triplicou quando Beatriz passou a investir no negócio — Foto: Arquivo Pessoal/Beatriz Esmanhoto

Público feminino

Grande parte da clientela de Beatriz é formada por mulheres. Segundo ela, os homens se sentem pressionados, e ainda têm vergonha de falar sobre o assunto, principalmente quando precisam se dirigir a uma mulher. “Cerca de 90% dos meus clientes são mulheres. Quando os homens vêm falar comigo, sinto que eles são enrijecidos e ficam na defensiva, muitas vezes não sabem bem como falar, ficam com medo ou vergonha de dizer palavras explícitas e fazer perguntas”, diz a jovem.

Diante das dificuldades que homens e mulheres ainda têm em falar sobre sexo, a empreendedora explica que tenta ao máximo criar uma relação com os clientes, para que eles a vejam como uma amiga. “Eu procuro mandar áudio, conversar abertamente e falar de forma descontraída, para deixar as pessoas 100% à vontade com a situação. Entendo que é um momento de intimidade, e que nem todo mundo se sente confortável em falar”, finaliza.

Liberdade

Falar sobre sexualidade nunca foi um problema para Beatriz. De acordo com a jovem, ela sempre teve liberdade para abordar o assunto dentro de casa. “Eu sempre vi o sexo de uma forma muito leve, muito livre. Minha mãe sempre falou abertamente sobre o assunto comigo, qualquer pergunta que eu fazia ela me explicava. Acho que trabalho nessa área justamente para lutar contra o tabu”, diz.

Mesmo com o crescimento das vendas e o engajamento na internet, a empreendedora diz que criar conteúdo para as redes sociais não é uma tarefa fácil. Isso porque as políticas de uso das plataformas acabam restringindo e excluindo publicações. “Cada vez que alguma comunidade atualiza as diretrizes, eu acho que a minha conta vai cair. O Instagram derrubou publicações minhas do Outubro Rosa. O TikTok é a rede que mais tenho problemas, metade dos meus vídeos foi boicotada”, explica.

De acordo com a jovem, os vídeos geralmente são excluídos por nudez ou conteúdo adulto, no entanto, ela diz que os conteúdos produzidos para a loja não são explícitos. “Produzir conteúdo dá muito trabalho, e quando a gente vê ele literalmente sendo jogado no lixo, é o que mais me desmotiva. É bem complicado, tem que ficar fazendo jogo de cintura para que os conteúdos sejam autênticos, e ao mesmo tempo conseguir me manter nas plataformas digitais”, conclui.

FONTE: G1

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