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O Duro Retrato da Fome: desempregada oferece trabalho em troca de comida, no Guarujá (SP)

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Sem emprego, sem renda, sem auxílio, fustigada pela fome como milhões de brasileiros, diarista do litoral de São Paulo que ofereceu seus serviços em troca de alimentos, relata sua rotina. “Sou mãe, pai e avó ao mesmo tempo. Faz quatro noites que eu não sei o que é dormir”

“Se não fosse essa doação, a gente ia comer um fubá que eu ganhei. Eu ia fazer uma polenta”, ‘a gente’ a que se refere a diarista desempregada Odneide de Almeida, de 39 anos, são suas cinco filhas menores e a neta, que completa um mês amanhã (15).

A doação, por seu turno, são mantimentos recebidos por dona Neide, como é conhecida na comunidade do Perequê, no Guarujá, após ela fazer um relato oferecendo seus serviços em troca de alimentos.

“Estou desempregada, sou mãe, pai e  ao mesmo tempo. Passando por dificuldades. Quero um emprego [de] faxineira, passadeira, babá etc. Tenho boa referência. Troco passada de roupa por cesta básica também”, afirmava o cortante anúncio, publicado pela diarista nas redes sociais na manhã de SEXTA-FEIRA (13) .

Sensibilizada, a proprietária de um salão de beleza na região doou mantimentos à dona Neide, temporariamente salvando-a e as seis bocas que ela alimenta de comerem fubá – único mantimento que restava no armário do barraco onde vive “de favor”, na Viela da Capela.

Emprego, porém, não surgiu, afirma dona Neide.  

Desemprego e fome

“Eu fazia faxina três dias por semana. Trabalhava na Enseada, no Guarujá. Minha patroa foi embora para o interior e fiquei desempregada. Ganhava 250 reais por semana ”, explica a diarista que teve negada a parcela de 2021 do auxílio emergencial.

“Recebi o auxílio emergencial de 2020, nesse último agora não fui aprovada”, lamenta.

Sem auxílio emergencial, ela alimenta as cinco filhas menores e a neta recém-nascida, com pouco mais de 100 reais mensais por pessoa de sua casa – soma da pensão das crianças, de 500 reais, com 253 reais do bolsa família.

“Dá para comprar o básico da alimentação. Onde moro, a minha sorte ainda é que eu não pago aluguel, moro de favor”, afirma a desempregada, tentando manter o otimismo, sem, contudo, esconder o desespero. “Tá só por Deus mesmo. Faz quatro noites que eu não sei o que é dormir”, relata Neide, com a voz embargada.    

Tal como no restante do país, pululam no litoral de São Paulo anúncios desesperados de famílias em situação famélica. Segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, atualmente 19,1 milhões de brasileiros estão em estado de insegurança alimentar grave. Isto é, passam fome.  

O estudo, conduzido pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), foi realizado em áreas urbanas e rurais, nas cinco regiões do país, em dezembro de 2020.

Um estudo do mesmo órgão, realizado entre outubro e novembro de 2020, estima que mais de 55,2% das famílias brasileiras conviveram com algum nível de insegurança alimentar no período. O número equivale a 116 milhões de pessoas.

Entre os fatores que mais contribuem para a fome, afirmam especialistas, está a falta de emprego e renda fixa, panorama acentuado drasticamente pela pandemia. Caso de dona Neide.  

Sem emprego e com o auxílio emergencial de 2021 negado, a diarista afirma que nunca enfrentou tantas dificuldades.

“Já passei por dificuldades antes, mas nunca fiquei tão apertada que nem agora.  Tô me sentindo uma inútil. Não por culpa minha, mas por ser pai, mãe e  ao mesmo tempo. Elas [as filhas e neta] dependem de mim. Me sinto de mãos atadas. Não tem emprego. Nada.  Na segunda-feira consegui uma faxina para ganhar 100 reais, comprei uma mistura, uma pomada pra nenê. Foi o dinheiro”, se explica Dona Neide.

O pai de Vitória Gabrieli, sua neta, segundo a diarista, recusa-se a ajudar, alegando que não é o pai da criança. Ela, dona Neide, então, mantém também o bebê de sua filha mais velha, de 17 anos.

Vizinhos também ajudam com mantimentos para a recém-nascida, afirma ela. “Os vizinhos já me ajudaram com fralda, com um arroz, um feijão. Sempre aparece um para ajudar. Mas aqui todo mundo tá precisando”.

Apesar de seu apelo ter sensibilizado muitas pessoas, dona Neide afirma que não surgiu nenhum emprego, e se preocupa. “Estou agradecendo quem me doou o alimento, mas o que eu queria mesmo era um emprego. Não obtive sucesso. Porque o alimento acaba e [com] o emprego eu, minhas filhas, minha neta, estaríamos protegidas, sabendo que todo mês eu vou ter aquilo”.

Hoje há comida na mesa, nos próximos dias, não se sabe, afirma dona Neide, enquanto se despede para preparar a refeição de suas filhas e neta. “Recebi essa doação ontem. Arroz, feijão, óleo, macarrão, molho. Vou fazer um macarrão, num forninho elétrico, porque gás… gás não tem ”.  

Contatada, a Prefeitura de Guarujá informou que o Fundo Social de Solidariedade (FSS) de município atende regularmente às famílias em situação de vulnerabilidade social, com doação de cestas básicas.

O órgão recomendou aos municipes em situação de vulnerabilidade que se cadastrem no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) da Enseada (Rua Dr. Fernando Nascimento, 640 – Cidade Atlântica), para ter acesso aos alimentos.

A prefeitura acrescentou também que mantém o programa ‘Mulheres em Rede’, mantido pela Assessoria de Políticas Públicas para Mulheres, da Secretaria Municipal de Comunicação e Relações Sociais, que é destinado a conectar as mulheres aos serviços oferecidos pelo Poder Público. Mulheres interessadas em fazer parte do programa podem contatar o Whatsapp número (13) 3308-7438, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

FONTE: Sistema Costa Norte de Comunicação

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